António Costa diz que há um problema de governabilidade à esquerda. Pois há. Afirmava o comunicado do Comité Central do PCP de 14 de novembro de 1998:

O Governo PS prefere seguir as orientações neoliberais ao serviço dos interesses do grande capital preconizadas pela União Europeia, FMI e outras instâncias internacionais que, a coberto das preocupações com o «sobreaquecimento da economia» e de mais umas décimas na taxa de inflação, pretendem salvar os interesses dos banqueiros e especuladores, sacrificando os trabalhadores e os povos. São disso exemplo as escolhas pelo Governo de um Orçamento submetido ás orientações do “Pacote de Estabilidade”, com a continuação do escandaloso processo de privatizações e o aumento dos benefícios fiscais a favor do capital financeiro e de um Pacote Laboral que contém
matérias altamente lesivas dos interesses e direitos dos trabalhadores.

Dois anos depois, analisando o OE para 2000 apresentado pelo PS, o PCP considerava então que

o Governo do PS não só não está interessado, nem quer, promover a justiça fiscal como, pelo contrário, mantém as injustiças actuais e agrava-as em termos relativos, designadamente no tratamento fiscal diferenciado dado aos rendimentos do trabalho e aos lucros do grande capital. Para além disso, o OE mantém a generalidade dos benefícios fiscais às operações e actividades financeiras e os ilegítimos e escandalosos privilégios fiscais atribuídos ao sistema bancário. Na realidade, o desagravamento fiscal destina-se exclusivamente aos lucros, em particular aos das grandes empresas, esquecendo totalmente os rendimentos do trabalho – numa inequívoca demonstração dos interesses de classe defendidos pelo Governo do PS.

Em janeiro de 2002, perante o esgotamento do governo do PS, o PCP denuncia que

a situação laboral e social de milhares de trabalhadores agrava-se significativamente. Multiplicam-se os encerramentos de empresas e as situações de salários em atraso, os despedimentos e o desaparecimento de postos de trabalho e o ataque aos direitos de quem trabalha. Aumenta a pressão do patronato perante a passividade do governo, sobre os salários dos trabalhadores com vista ao seu congelamento e diminuição real, o que não impede que ao mesmo tempo os salários mais altos no nosso País estejam ao nível de alguns dos mais altos da Europa. Confirma-se o acentuar das desigualdades e o aumento da diferença entre o nível de vida dos portugueses em relação aos outros povos da União Europeia.

Pelo que “Os últimos meses de vida do Governo do PS (…)  espelham alguns dos traços mais negativos da política de direita que, nos seus aspectos mais estruturantes e opções dominantes, caracterizaram a governação do PS.” Depois do prosseguimento do desastre por Durão Barroso e Santana Lopes entre 2002 e 2005, entra em cena novo governo do PS. O que trás a proposta de OE para 2006? Segundo a análise realizada em novembro desse ano pelo PCP

A proposta de Orçamento do Estado confirma a opção pela continuidade das políticas prosseguidas pelos governos anteriores, caracterizada pelo cego cumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento e dos seus critérios restritivos e monetaristas e por uma política anti-social. Um Orçamento que serve os interesses do grande capital nacional e transnacional e penaliza a generalidade da população — trabalhadores, reformados, micro e pequenos empresários, agricultores e pescadores.

E em outubro do ano seguinte o PCP alerta para algumas consequências do grave caminho do governo do PS de então, afirmando que,

(…) luta pela concretização de uma ruptura com as orientações e opções das políticas de direita, advogando uma política que tenha como grandes objectivos estratégicos resolver os principais problemas do País, responder aos anseios e aspirações do povo português, aprofundar o regime democrático e defender a soberania. A resposta não está, certamente, no aprofundamento da política de direita, como vem fazendo o Governo PS/Sócrates, ou com a total subversão da Constituição da República, como pretendem outros – a que aliás o Governo dá uma preciosa contribuição prática com as medidas governamentais em curso na saúde, na educação e na segurança social.

Pois há um problema de governabilidade à esquerda António Costa. É um problema de políticas.

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