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Concordamos inteiramente a afirmação de que

António Costa sabe muitíssimo bem o que vai e o que quer fazer, se algum dia lá chegar. O problema é que tem de disfarçar o facto mais que certo de vir a interpretar – ainda que com outros instrumentos e instrumentistas – exactamente a mesma ‘sonoridade’ que tem sido interpretada por aqueles que hoje se encontram na liderança

Em fevereiro de 2013, o PS produzia o Documento de Coimbra que unindo António José Seguro e António Costa, dizia que

Portugal vive um momento dramático. Em violação dos seus compromissos
eleitorais, o actual Governo PSD/CDS tem vindo a prosseguir uma estratégia de
empobrecimento do País, assente numa violenta política de austeridade do
custe o que custar e numa agenda ideológica ultraliberal contra as funções
sociais do Estado. Os resultados desta política estão à vista.

Concordando com este parágrafo, que é aliás semelhante a várias análises que o PCP, o BE e a CGTP têm realizado, esperariamos na sua sequência compromissos de rutura com esta política. Ora, segundo o Público deste mês, num almoço do America Club António Costa

 coloca uma condição para a existência de compromissos políticos – num recado que parece ir, por inteiro, para o PSD e o CDS: “Só haverá consenso depois de se consumar a ruptura.” E isso passa, reforça, por uma “mudança de processo e de interlocutores”.

De súbito, esta “mudança de processo e de interlocutores” pareçeu mostrar que Antonio Costa está enredado nas suas contradições. Afirma a mudança e proclama a rutura, mas afirma que a sua agenda é geradora de compromissos com todos:

É em torno destes objetivos – desta agenda (de valorização, conhecimento, modernização e coesão) para a próxima década – que podemos gerar compromissos. Com todos.

Com todos, António Costa? Com o PP, com o PSD? Bom, vamos ser claros. Esta surpresa minha é apenas retórica. Claro que Costa quer um compromisso a 10 anos com o PSD, o PP e a UGT e em simultâneo ter na  Presidência da República um “Cavaco do Costa”. É o seu sonho e projeto; é o sumo de todas as banalidades e expressões-lugar-comum que abundam na candidatura de António Costa à subtituição de Seguro.

Enquanto isto Seguro continua em gestão e no debate quinzenal de ontem na AR, sem qualquer rasgo de autocrítica afirma banalidades como: “Nós não fazemos, na oposição, o que o senhor fez há três anos, que foi prometer uma coisa e fazer outra ao chegar ao governo”

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António Costa diz que há um problema de governabilidade à esquerda. Pois há. Afirmava o comunicado do Comité Central do PCP de 14 de novembro de 1998:

O Governo PS prefere seguir as orientações neoliberais ao serviço dos interesses do grande capital preconizadas pela União Europeia, FMI e outras instâncias internacionais que, a coberto das preocupações com o «sobreaquecimento da economia» e de mais umas décimas na taxa de inflação, pretendem salvar os interesses dos banqueiros e especuladores, sacrificando os trabalhadores e os povos. São disso exemplo as escolhas pelo Governo de um Orçamento submetido ás orientações do “Pacote de Estabilidade”, com a continuação do escandaloso processo de privatizações e o aumento dos benefícios fiscais a favor do capital financeiro e de um Pacote Laboral que contém
matérias altamente lesivas dos interesses e direitos dos trabalhadores.

Dois anos depois, analisando o OE para 2000 apresentado pelo PS, o PCP considerava então que

o Governo do PS não só não está interessado, nem quer, promover a justiça fiscal como, pelo contrário, mantém as injustiças actuais e agrava-as em termos relativos, designadamente no tratamento fiscal diferenciado dado aos rendimentos do trabalho e aos lucros do grande capital. Para além disso, o OE mantém a generalidade dos benefícios fiscais às operações e actividades financeiras e os ilegítimos e escandalosos privilégios fiscais atribuídos ao sistema bancário. Na realidade, o desagravamento fiscal destina-se exclusivamente aos lucros, em particular aos das grandes empresas, esquecendo totalmente os rendimentos do trabalho – numa inequívoca demonstração dos interesses de classe defendidos pelo Governo do PS.

Em janeiro de 2002, perante o esgotamento do governo do PS, o PCP denuncia que

a situação laboral e social de milhares de trabalhadores agrava-se significativamente. Multiplicam-se os encerramentos de empresas e as situações de salários em atraso, os despedimentos e o desaparecimento de postos de trabalho e o ataque aos direitos de quem trabalha. Aumenta a pressão do patronato perante a passividade do governo, sobre os salários dos trabalhadores com vista ao seu congelamento e diminuição real, o que não impede que ao mesmo tempo os salários mais altos no nosso País estejam ao nível de alguns dos mais altos da Europa. Confirma-se o acentuar das desigualdades e o aumento da diferença entre o nível de vida dos portugueses em relação aos outros povos da União Europeia.

Pelo que “Os últimos meses de vida do Governo do PS (…)  espelham alguns dos traços mais negativos da política de direita que, nos seus aspectos mais estruturantes e opções dominantes, caracterizaram a governação do PS.” Depois do prosseguimento do desastre por Durão Barroso e Santana Lopes entre 2002 e 2005, entra em cena novo governo do PS. O que trás a proposta de OE para 2006? Segundo a análise realizada em novembro desse ano pelo PCP

A proposta de Orçamento do Estado confirma a opção pela continuidade das políticas prosseguidas pelos governos anteriores, caracterizada pelo cego cumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento e dos seus critérios restritivos e monetaristas e por uma política anti-social. Um Orçamento que serve os interesses do grande capital nacional e transnacional e penaliza a generalidade da população — trabalhadores, reformados, micro e pequenos empresários, agricultores e pescadores.

E em outubro do ano seguinte o PCP alerta para algumas consequências do grave caminho do governo do PS de então, afirmando que,

(…) luta pela concretização de uma ruptura com as orientações e opções das políticas de direita, advogando uma política que tenha como grandes objectivos estratégicos resolver os principais problemas do País, responder aos anseios e aspirações do povo português, aprofundar o regime democrático e defender a soberania. A resposta não está, certamente, no aprofundamento da política de direita, como vem fazendo o Governo PS/Sócrates, ou com a total subversão da Constituição da República, como pretendem outros – a que aliás o Governo dá uma preciosa contribuição prática com as medidas governamentais em curso na saúde, na educação e na segurança social.

Pois há um problema de governabilidade à esquerda António Costa. É um problema de políticas.