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Com Gaibéus, de Alves Redol Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, estabelecem-se as coordenadas fundamentais do quadro iniciador de um movimento cultural que pretendia traduzir, no processo literário, a lutapela dignidade da pessoa humana, como Armando Bacelar não deixou de assinalar numa nota crítica publicada em 1947 na revistaVértice.

(…)

A obra que Alves Redol ergueu, poderosa na sua configuração estética, interventiva e cultural, iniciou-se como uma contra corrente que se impôs, como antítese, à «política do espírito» desse ideólogo do fascismo que foi António Ferro, mas, de igual modo, e não menos combativo, opondo-se ao conservadorismo estético da Presença, sendo ainda, num registo mais sóbrio, igualmente de ruptura com o ideário político-cultural que António Sérgio e Raul Brandão defendiam nas páginas da Seara Nova.

A escrita de Redol é de claro compromisso com o povo e a sua cultura, com um projecto de elevação social e cultural do povo, definido pelo grupo neo-realista de Vila Franca de Xira (1936/37) e do qual faziam parte Alves Redol, Dias Lourenço, Garcez da Silva, Bona da Silva, Mário Rodrigues Faria, Arquimedes da Silva Santos e Carlos Pato.

Daí a pesquisa incessante das fontes: no Douro, nas lezírias do Tejo, na Lisboa das docas e do operariado urbano; na Nazaré dos amores desesperados, da heroicidade dos homens frente ao mar bravio, revelada em Uma Fenda na Muralha, imaginário que o autor transporta para o guião a partir do qual Manuel Guimarães realizou o filme Nazaré; as conversas no Aljube com um mercenário a soldo do franquismo, ou as metamorfoses de um herói (A Barca dos Sete Lemes); a Lisboa da 2.ª Guerra, cidade povoada de judeus em busca de um passaporte que lhes permitisse serem livres em terras da América (o Cavalo Espantado), tema, sobre a diáspora dos judeus, igualmente presente no livro de contos Nasci com passaporte de turista. Uma busca permanente desse espaço telúrico essencial, a um tempo lírico, desassombrado e agreste, o corpo textual interdependente do corpo social, pelos caminhos em que as tarefas dos homens, dos descamisados, melhor se expressa e afirma. As paisagens humanas, esse conflituoso, esquivo território em que o homem se representa inteiro, se move, se expõe, consciencializa, luta e transfigura.

Alves Redol constrói com autenticidade, uma plêiade imagética única e poderosa na ficção portuguesa de grande parte do século XX, anunciando outro tempo, o tempo da afirmação e da dignidade do humano, da sociabilidade, da arte romanesca como espaço privilegiado de intervenção cultural e política que o neo-realismo veio fixar e, como nenhum outro movimento literário e artístico do século XX português, tornar perene.

Esse posicionamento face à literatura vamos encontrá-lo logo em Gaibéus, no ceifeiro-rebelde, no qual o pensamento do então jovem escritor se projectava. Ele simboliza, no seu esquematismo individual, a idealização da consciência colectiva que só nas obras posteriores o autor desenvolverá com mais clareza. Daí o ceifeiro rebelde, demiurgo do sonho colectivo, saber que «Falava pelos homens que ainda não se haviam encontrado».

Para nos encontrarmos, face às lutas deste nosso tempo, precisamos destas vozes, desse grito que ia para o futuro,destes autores, deste exemplo cívico, cultural e humano que a obra de Alves Redol lúcida e plenamente inscreve na imanência do corpo textual da literatura portuguesa contemporânea.

Repesco aqui um excerto de um texto de Mário Dionísio publicado na Seara Nova em 1942: «Quando mais tarde se estudar a literatura portuguesa do século XX, os seus períodos de apogeu e os seus períodos de decadência, o estudo de Alves Redol impor-se-á como o estudo do primeiro grito de reacção contra a enxurrada de abstenções e falsidades» sobre a realidade desses tempos. A verdade opondo-se à mistificação, eis o que Redol oferece,reclamando, em pleno, o direito de cidade, às letras portuguesas.

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