Domingos Lobo, a Portuguese writer, presents gives us an account of Victor Hugo‘s The Miserable. 

Para Victor Hugo o romantismo «é a liberdade na arte». A personalidade de Victor Hugo, a sua influência, o seu prestígio tornam-no na figura literária mais marcante do primeiro romantismo, tanto em França como no resto da Europa. Vejamos Óscar Lopes/António José Saraiva: «A sua lira enriquece-se de novos temas: a luta contra o absolutismo político (Châtiments, 1853); a evolução e o progresso da humanidade (Légende des Siècles – 1859/83); reivindicações humanitárias (Os Miseráveis, 1862). Este alargamento da temática poética de Hugo deve-se principalmente aos acontecimentos de 1848-50 em toda a Europa, às lutas populares e burguesas travadas em França, na Itália, nos Balcãs e na Polónia contra o império francês, contra o feudalismo do Centro e Oriente da Europa, lutas que vinham na sequência das de 1830, com o sensível aparecimento de um factor novo, a camada operária engrossada pela industrialização.» (1)

 

Publicado a 3 de Abril de 1862, Os Miseráveis, tornar-se-ia não apenas o romance mais importante de Victor Hugo, como aquele que, em definitivo, colocaria o autor na galeria dos mais respeitados escritores de toda a história da literatura. O livro, que na versão portuguesa a que recorro para este texto se apresenta em quatro grossos volumes (2), é um fresco impressionante da sociedade francesa da primeira metade do século XIX. Da Batalha de Waterloo (1815), às barricadas da Rue Saint-Denis, em Junho de 1832, a épica história de Jean Valjean, o homem que esteve preso 17 anos por roubar um pão, que sofreu o suplício das galés e que, em grande parte da vida, foi perseguido por Javert, um inspector da polícia que tinha um estranho sentido do dever, é descrita com uma precisão de pormenor que só a pena de um escritor de vastíssimos recursos e qualidades artísticas e humanas conseguiria, com tanto rigor de pormenor, traçar. A morte de Gavroche nas barricadas, o resgate de Marius pelos esgotos de Paris, são momentos ímpares em toda a história da literatura. Raramente o romance, o romance que os autores do século XIX construíram e do qual, ainda hoje, com episódicos pormenores de estilo e de circunstância, somos herdeiros, atingiu, como neste texto de Victor Hugo, tão vastos patamares de emoção, quer na forma de representação da vida colectiva da época, quer na denúncia das atrocidades do sistema em relação ao povo miúdo e deserdado da sorte e da fortuna, os problemas de um povo acossado, as suas lutas e misérias, a revolta, por fim, atingem neste fresco lapidar os momentos mais altos e sublimes de que a literatura, a que se empenha com o homem e o seu devir, foi capaz. O ideal romântico de confiança no homem e na sua capacidade de travar as injustiças, a fome e a opressão, capaz, por fim, de transformar a realidade, superando-a, está plenamente expressa neste romance exemplar. Victor Hugo encena em Os Miseráveis (apesar dos fortes componentes românticos que o estruturam, mormente no último capítulo) as experiências de amplas camadas humanas e do começo da tomada de consciência do operariado. Zola tornaria ainda mais evidente estes pressupostos, e ambos, Zola e Hugo, com o seu exemplo e o manancial humano e social, o romantismo como elemento de transformação do real que os seus textos imprimem e transportam, serviria, oito décadas depois, como esteio do nosso neo-realismo. Ou seja, 150 anos depois, Os Miseráveis ainda é, face às derivas deste nosso desgraçado tempo, um romance actual e pleno de sinais e ensinamentos. Os poderes de hoje ainda prendem e perseguem um homem que tenha fome e roube pão.

 

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